Incêndio que destruiu o Museu Nacional começou no ar-condicionado do auditório, diz laudo da PF

Segundo perito, um dos três equipamentos não possuía aterramento externo, e não havia disjuntor individualizado para cada um deles. Incêndio acabou com grande parte do acervo do museu em setembro do ano passado

Foto: Reuters/Ricardo Moraes
Por Ângela Duarte há 5 meses

G1

A Polícia Federal afirmou nesta quinta-feira (4) que o incêndio que destruiu o Museu Nacional teve início em um dos aparelhos de ar condicionado localizados no auditório térreo do prédio de três andares. Entretanto, não esclareceu se houve ação culposa (negligência) ou dolosa (criminosa, com intenção de provocar danos).

Antes de apresentar o laudo à imprensa nesta manhã, o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, adiantou que não seria respondida à pergunta se houve ação criminosa no incêndio. Segundo ele, a investigação ainda está em curso e não há data prevista para divulgação da conclusão do inquérito.

Os detalhes do trabalho pericial foram apresentados pelo delegado responsável pela investigação, Paulo Telles, e três peritos – um especialista em audiovisual, outro em incêndios e outro em eletricidade.

A perícia descartou que o fogo tenha sido provocado por descarga atmosférica (raios), balão inflamável ou incendiarismo, que significa ato voluntário que provoca um incêndio.

A primeira etapa da investigação se concentrou em identificar onde teve início o fogo que consumiu o prédio. O primeiro passo foi registrar imagens do museu imediatamente após controladas as chamas. "Foram feitas centenas e centenas de imagens", destacou o perito José Rocha, especialista em audiovisual.

Rocha explicou que havia riscos para o trabalho dos peritos, e registrar a situação do prédio era fundamental, pois havia ameaça de colapso do prédio, dificultando ainda mais as análises.

Foi feita uma ortofoto com drone, uma imagem que sobrepõem, segundo o perito, mais de mil fotografias de alta resolução que permitiram preservar a imagem do museu logo após o incêndio.

Ainda segundo Rocha, algumas câmeras que estavam em funcionamento dentro do museu registraram a fumaça, o que permitiu aos peritos identificarem parte do trajeto percorrido por ela dentro do prédio. Foi este o ponto de partida para se chegar ao foco inicial das chamas.

Primeiro sinal de fumaça

Segundo Carlos Alberto Trindade, perito especialista em incêndio, o primeiro sinal de fumaça foi registrado pelas câmeras às 19h13 no segundo pavimento. Com a ajuda de outras imagens, foi possível perceber que a fumaça partia do andar térreo.

"O fogo começou no auditório e no pavimento térreo", afirmou Trindade.

Identificado o local onde teve início o fogo, cerca de 75% do prédio foi liberado para o resgate do acervo, reservando a área do auditório e suas adjacências para que os peritos continuassem investigando as causas do incêndio.

Todo o material do auditório foi retirado lentamente, para que fossem vasculhadas peças do acervo. Com o espaço vazio, os peritos identificaram toda a rede elétrica e equipamentos elétricos da área, foco principal da investigação até então.

Testes foram feitos no piso do auditório com matérias combustíveis distintos, como álcool, gasolina e diesel. Segundo o perito Carlos Trindade, o objetivo era confrontar as marcas provocadas no piso pelas chamas geradas com esses materiais com as que foram formadas após o incêndio. “Não identificamos nenhuma marca provocada por material propagador de chama”, afirmou.

A perícia passou a se concentrar, então, na parte elétrica do auditório. Segundo o perito Marco Antônio Isaac, especialista em eletricidade, no principal da rede elétrica do museu, não foi identificado nenhum sinal de curto ou falha provocada por agente externo.

Os equipamentos elétricos encontrados no auditório foram periciados, a fim de se identificar se algum deles tinha sinais de ter originado as chamas. Caixas de som, projetor e outros aparelhos não apresentavam nenhum sinal suspeito. Análises mais detalhadas passaram a ser feitas nos três equipamentos de ar-condicionado que havia na sala.

“Nós identificamos logo no início que havia o rompimento de um fio no aparelho que ficava mais próximo do palco do auditório”, disse.

Segundo o perito, o rompimento do cabo é “típico de um evento de uma sobre corrente, uma corrente maior que o aparelho pode suportar sem queda do disjuntor”, ou seja, houve um curto circuito no aparelho.

Trindade enfatizou que foi identificada falha na instalação do sistema de ar condicionado do auditório. Um dos três equipamentos não possuía aterramento externo e não havia disjuntor individualizado para cada um dos três aparelhos.

Questionado se houve negligência na instalação do aparelho, Issac se limitou a dizer que ela “não estava seguindo a recomendação do fabricante”. Segundo ele, o fabricante do ar condicionado recomenda um disjuntor para cada aparelho para que, em caso de falha do equipamento, ele seja desligado imediatamente.

“Pode ser que o disjuntor não o identificou devido à sobrecarga dos três aparelhos”, ressaltou.

Incêndio destruiu grande parte do acervo

O incêndio de grandes proporções que destruiu o Museu Nacional começou por volta das 19h30 do domingo, 2 de setembro, e só foi controlado no fim da madrugada de segunda-feira (3). Mas pequenos focos de fogo seguiam queimando partes das instalações da instituição que completou 200 anos em 2018 e foi residência de um rei e dois imperadores.

A maior parte do acervo, de cerca de 20 milhões de itens, foi totalmente destruída. Fósseis, múmias, registros históricos e obras de arte viraram cinzas. Pedaços de documentos queimados foram parar em vários bairros da cidade.