Sobreviventes do ciclone Idai lutam para voltar à normalidade

Em Moçambique, a população afetada aumentou até as 794.035 pessoas, das quais 128.941 vivem em 143 refúgios criados pelo Governo

Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters - 24.3.2019
Por Ângela Duarte há 7 meses

Fonte: Portal R7

À medida que algumas cidades do centro de Moçambique começam a ressurgir das águas após a devastadora passagem do ciclone Idai, que deixou 447 mortos no país, muitos sobreviventes tentam seguir suas vidas apesar da falta de infraestruturas e do encarecimento dos alimentos.

"Agora que a água baixou, tentamos recomeçar nossa vida, mas seguimos sem energia. Nem os bancos e nem o Mpesa (pagamento de dinheiro eletrónico) funcionam e os preços aumentaram muito", explicou nesta segunda-feira à Agência Efe Fernando Domingos, sobrevivente de Búzi, cidade moçambicana até há pouco submersa.

"Um saco de farinha que (antes) custava 850 meticais (12 euros) agora é vendido a 1,4 mil meticais (quase cerca de 20 euros)", especifica Domingos por telefone.

Muitas áreas seguem isoladas

Em Moçambique, o país mais afetado por Idai e onde o ciclone tocou terra em 14 de março, o nível de água das inundações começou a baixar e pela primeira vez no domingo foi possível chegar a zonas isoladas.

Como outros moradores desta cidade localizada ao sul de Beira, epicentro desta catástrofe, Domingos lembra com clareza os instantes prévios às inundações que seguiram ao ciclone, considerado um "desastre sem precedentes" nesta região pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas.

"O carro de polícia começou a circular avisando as pessoas para se refugiar. Eu tomei algumas coisas (de casa) e junto à minha família fomos ao centro da cidade, à Rádio Comunitária que está em um primeiro andar, onde já havia outros moradores", relatou Domingos sobre 16 de março.

Junto à sua esposa e dois filhos de 3 e 4 anos de idade, assim como uma cunhada e um sobrinho, Domingos permaneceu neste edifício até quinta-feira, 21 de março, quando Idai começou a ocupar manchetes no mundo todo e diversos organismos internacionais denunciaram a gravidade desta catástrofe meio ambiental.

"A água subiu muito rápido. Às 21h já estava tudo cheio. À meia noite éramos cerca de cem pessoas, juntas de pé, adultos e crianças", disse, ao acrescentar que sobreviveram compartilhando entre todos os alimentos que tinham trazido e assegurando que as crianças "comessem uma vez por dia".

447 mortos em Moçambique

Na atualização desta segunda-feira (25) do Instituto Nacional de Gestão de Catástrofes moçambicano, o número de vítimas mortais subiu para 447, uma a mais que no domingo.

Além disso, a população afetada aumentou até as 794.035 pessoas, das quais 128.941 vivem em 143 refúgios criados pelo Governo.

Segundo o sobrevivente das inundações em Búzi, "ontem (domingo), o Governo começou a distribuir algum apoio: arroz, macarrão, óleo, sal e açúcar, mas não chega a uma família inteira".

No vizinho Zimbábue, onde o ciclone tocou terra no dia 15 de março, helicópteros privados e das forças áreas distribuem sem pausa comida às comunidades de Chimanimani e Chipinge, os dois distritos do leste do país mais afetados.

Neste país, o número de mortos chega a 154, enquanto os deslocados alcançam os 884 e os desaparecidos 187, segundo números de no sábado passado do Ministério de Informação zimbabuano.

A este número se somam os 56 mortos que Idai causou no Malawi, quando ainda era uma tempestade tropical.

As tarefas dos organismos nacionais e internacionais se centram na repartição de comida e em evitar doenças graves que costumam surgir com a água que fica parada, como o cólera e a malária.