'O PT tem que visitar seus demônios', afirma ex-ministro de Lula e Dilma

Após a derrota do PT, Gilberto Carvalho reconhece que o partido precisa "corrigir problemas" que "magoaram, ofenderam e decepcionaram a sociedade".

Por Ytalo Kubitschek há 10 meses

Em entrevista à "BBC News Brasil" na sede nacional do PT, entrecortada pelos trovões típicos das chuvas de fim de ano em Brasília, ele afirma que o sentimento antipetista que contribuiu para a derrota de Fernando Haddad foi inflado nesta eleição por mentiras como a de que seu governo iria "venezuelizar o País" ou distribuir um "kit gay contra a família".

Mas admite que as urnas trazem também um recado para o partido "visitar os demônios" da corrupção.

"A nossa convivência com a política tradicional, o financiamento empresarial de campanha, junto com isso veio corrupção, na forma de arrecadar dinheiro para campanha, até em alguns casos o enriquecimento de algumas pessoas, embora muito poucas, mas teve. Isso, sim, a gente tem que encarar, que eu chamo de a gente visitar os nossos demônios", diz. 

"Não podemos funcionar como aqueles que querem um inferno para o País. Não cabe a nós desejar o pior, pois quem sofre muito é o povo pobre. Nós temos que ter responsabilidade. Cabe a nós fiscalizar, vigiar, alertar e buscar conscientizar a população daquilo que for acontecendo", acrescenta. 

Apesar disso, ele reafirmou a crença na inocência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que o mero convite para o juiz Sergio Moro integrar o governo Bolsonaro, aceito na quinta-feira, confirmava sua "parcialidade" no julgamento do ex-presidente. 

Carvalho, que chefiou o gabinete pessoal de Lula durante seus oito anos de governo e foi ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República no primeiro mandato de Dilma Rousseff, defende a formação de uma frente democrática popular com movimentos sociais e partidos.

Questionado sobre se foi um erro não apoiar a candidatura presidencial de Ciro Gomes, do PDT, Carvalho afirmou que ele "não apoiou o PT nessa tarefa" e que na política as coisas não acontecem "automaticamente". 

Na entrevista, o ex-ministro também refuta a necessidade de que o PT mude sua postura em relação à Venezuela e diz que o governo de Nicolás Maduro sofre "sabotagem americana". 

"É evidente que não apoiamos a perseguição da oposição, mas nós preferimos, antes de fazer uma crítica, conhecer melhor o que é a Venezuela e quais são as razões que levaram a isso (a crise atual)", afirmou. 

Com UOL