Muito mais que um pet: conheça Prince, um animal de suporte emocional

Tão vitais como cães-guia são para cegos, esses bichinhos fazem parte do tratamento contra ansiedade, pânico e depressão. Lei estadual garante pleno acesso nos transportes públicos

Foto: Eduardo Pierre/G1
Por Ângela Duarte há 5 meses

G1

Um amor incondicional é capaz de salvar vidas – e pode estar olhando para você agora, querendo colo ou pedindo um petisco. A funcionária pública estadual Danielle Cristo, de 43 anos, descobriu que seu golden retriever Prince of Persia não é só um pet. Seu fiel companheiro virou um animal de suporte emocional, com carteirinha e tudo.

Assim como cães-guia são fundamentais para deficientes visuais, animais de suporte emocional “seguram a onda” de quem tem episódios de depressão ou ansiedade. E não é preciso muito: basta estar presente na rotina de seus donos.

“Eles diminuem a frequência de batimentos cardíacos e equilibram a pressão arterial”, atesta Adriana Marques, professora do curso de psicologia do Centro Universitário Celso Lisboa.

“Existe um crescimento contínuo de casos em que pessoas estão sendo beneficiadas por esse tipo de suporte emocional, e a cada dia tornam-se mais evidentes a importância e a aceitação dessa prática terapêutica”, completa a psicóloga Luciane Malizia.

Uma lei estadual garante a todos eles pleno acesso ao transporte público e a estabelecimentos comerciais. Prince já é assíduo no Metrô Rio, por exemplo. “Foi o pioneiro a liberar a entrada”, agradece Dani.

No Brasil ainda não há processo de registro desses animais – não necessariamente cachorros, já que qualquer espécie pode servir à tarefa. Nos Estados Unidos, onde Dani solicitou a carteira para Prince, o procedimento é muito simples.

“Não precisa treinar o pet, o que o diferencia dos animais de assistência e dos cães-guia. O suporte emocional vem do contato direto com animal, o que é capaz de gerar benefícios e minimizar os sintomas gerados por tais doenças”, destaca Luciane.

“O animal tem de ser sociável, dócil e obediente”, ensina Dani. “Tem gente que quer ter cobra e pavão, mas aí não pode andar em qualquer lugar”, brinca.

De pet a parte do tratamento

Dani explica que Prince, hoje com 8 anos, chegou ainda filhote, quando ela nem sequer imaginava o que ele se tornaria. “Em 2011, decidi ter um cachorro. Escolhi um golden. Na época, era um pet normal para mim, para brincar”, lembra Dani.

“Só que minha mãe faleceu, e eu comecei a sentir muita falta”, destaca. “Eu já tinha uma coisa de ansiedade, e isso passou a ficar mais intenso. Eu me descontrolava fácil”, conta.

Seu terapeuta percebeu que Prince era frequentemente citado nas sessões. Partiu dele a ideia de torná-lo um animal de suporte emocional. “Eu nem sabia que existia, só conhecia cão-guia e animal de serviço”, frisa a funcionária pública.

Nos Estados Unidos é comum ver cães, gatos e até porcos em voos mais longos pelo país. Daí grandes redes de pet-shops oferecem o serviço, desde que o dono apresente laudo psiquiátrico recomendando o suporte. Foi lá que Dani fez a de Prince.

“O animal dá uma aceitação incondicional. Isso nós temos muito raramente nas relações interpessoais. O animal aceita se você está bem, se você está mal. Ele está ali do seu lado”, explica Adriana.

“Além do suporte emocional pela presença do animal, a decisão de ter um bichinho traz uma série de compromissos que fazem parte do próprio cuidado e da promoção do bem-estar desse novo membro da família”, emenda Luciane.

“Isso acaba ajudando em diversos aspectos, como distração, conforto, ocupação, companhia, rotina e motivação. Ele gera o sentido da responsabilidade, onde a pessoa tem a oportunidade de e cuidar de um amigo”, detalha a profissional.

Quase 60 anos de pesquisas

O uso dos animais como apoio emocional é antigo. “Desde a década de 50, 60, a doutora Nise da Silveira começou a perceber que a presença de cães e gatos dentro do hospital psiquiátrico diminuía o número de crises dos pacientes psiquiátricos”, lembra Adriana.

A professora, porém, ressalta que o animal não substitui o tratamento. “É como se ele fosse um somatório”, resume. “O psiquiatra vai fazer o acompanhamento medicamentoso, e a psicologia vai trabalhar a elaboração de conflitos, as questões associadas ao desencadeamento daqueles processos de ansiedade de depressão. O animal vai ser aquele referencial que vai permitir trazer mais segurança para aquela pessoa”, conta.

Pode mexer?

Cães-guia e de serviço, como os que auxiliam pessoas com mobilidade reduzida, estão na rua a trabalho e não podem desviar a atenção – daí ser proibido a qualquer um na rua parar para brincar. Com Prince e demais animais de suporte emocional, a regra não é tão rígida.

“O ideal é que a pessoa chegue e pergunte para o dono. Eu normalmente autorizo”, diz Dani. Exceções são ambientes muito cheios. “Eu preciso que ele se concentre em mim”, explica.

Salvo quando está com o marido ou com o pai, Dani anda sempre com Prince. “Ele sabe quando estou triste”, emociona-se. As andanças do golden retriever podem ser vistas e curtidas no Instagram.