Trânsito matou quase três pessoas por dia em 2018 na PB, aponta estatística do DPvat

Dados da operadora do DPvat indicam que pelo menos 930 pessoas morreram vítimas de acidentes de trânsito em 2018. Número é 23% inferior ao de assassinatos na Paraíba

Foto: Beto Silva/TV Paraíba
Por Ângela Duarte há 4 meses

Fonte: G1

Falar que o trânsito na Paraíba mata tanto quanto a violência endêmica deixou de ser um exagero e ganhou contornos de verdade. Somente em 2018, morreram pelo menos 930 pessoas nas rodovias, avenidas e ruas paraibanas segundo dados oficiais da seguradora Líder, operadora do seguro DPvat. Proporcionalmente, o dado aponta que quase três pessoas morreram por dia em acidentes de trânsito da Paraíba no ano passado.

Em um cruzamento de dados feito pelo G1, as mortes no trânsito da Paraíba são apenas 23% a menos do que as mortes registradas pelas autoridades policiais decorrentes de algum tipo de violência intencional, seja homicídio, latrocínio ou lesão corporal seguida de morte. Dados da Secretaria de Estado da Segurança e Defesa Social (Seds) da Paraíba apontam que 1.210 pessoas foram assassinadas em 2018.

Em paralelo aos dados fornecidos pela seguradora Líder, a própria Seds contabiliza as mortes no trânsito por meio do Batalhão de Policiamento de Trânsito da Polícia Militar, acionado sempre que há acidente com morte em rodovias estaduais e ou no trânsito urbano ou rural das avenidas, ruas e estradas das cidades.

Foram contabilizadas 753 vítimas de Acidentes Letais de Trânsito (ALT) na Paraíba em 2018, de acordo com a Seds. O número é inferior ao indicado pela seguradora que opera o DPvat pois no caso da Seds não são contabilizados os acidentes em rodovias federais no estado, tendo em vista que ficam a cargo da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Embora a diferença entre os mortos no trânsito e em casos de violência seja apenas de 230 vítimas, o número de mortos em acidentes na Paraíba caiu 8,5% em relação ao ano de 2017, quando foram pagos pelo DPvat 1.017 indenizações por morte no estado. A terceira maior redução do Nordeste, atrás apenas de Bahia (-9,8%) e Pernambuco (-9,3%).

Em números absolutos houve uma queda. Porém, para a seguradora Líder, com base no indicador do DPvat informado pela primeira vez nos relatórios anuais de pagamento do seguro, a Paraíba subiu uma posição no ranking dos piores indicadores do DPvat entre 2017 e 2018, passando de 8° para 7° pior índice. O cálculo é feito na relação entre a frota de veículos e o número de indenizações pagas.

Na Paraíba, no ano passado, foram pagas 7,3 mil indenizações por morte, invalidez permanente ou despesas médicas em uma frota de 1.280.901 de veículos, proporcionando 56 indenizações a cada 10 mil veículos. O pior estado no ranking do indicador em 2018 foi Rondônia, com 91 indenizações pagas a cada 10 mil veículos.

Problema de saúde pública

O crescimento no número de vítimas de acidentes tem feito a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerar o problema como um dos principais problemas de saúde pública do Séc. XXI. O secretário de Saúde da Paraíba, Geraldo Medeiros, considera as mortes no trânsito como o maior problema de saúde do país.

“Agressões e acidentes consomem 10% do Produto Interno Bruto do Brasil. É um volume muito elevado quando a gente considera que 90% desses eventos, principalmente no trânsito, poderiam ser evitados”, comentou o secretário.

De acordo com um levantamento feito pela própria Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES), os acidentes e homicídios, considerados como mortes violentas, são a terceira maior causa de morte na Paraíba, atrás dos acidentes cardiovasculares e dos problemas respiratórios.

A situação se agrava ainda mais quando os dados dos números de mortos em acidentes de trânsito são recortados entre os jovens de 15 a 29 anos, de acordo com secretário de saúde da Paraíba, Geraldo Medeiros.

“Essa parcela da população, majoritariamente homens com idade entre 15 e 29 anos, está sendo levada à morte ou às sequelas para o resto da vida. Dados apontam que 75% das indenizações são direcionadas às vítimas de acidente de moto. Vivemos uma epidemia e a população ainda não se atentou para gravidade dele”, avaliou o secretário.

Vilão motocicleta

O relatório anual produzido pela seguradora Líder indicou que em 2018, na Paraíba, 86% das indenizações pagas na Paraíba foram para pessoas vítimas de acidentes com motocicletas. No total, foram registrados 7.232 acidentes que ocasionaram liberação de indenizações do seguro DPvat, sendo 6.235 delas somente para vítimas de acidentes de trânsito com moto.

O dado apontado pelo DPvat é refletido nos casos registrados nos hospitais de emergência e trauma em João Pessoa e em Campina Grande. Geraldo Medeiro explica que, somente no Hospital de Trauma de Campina Grande, o maior em número de atendimentos no estado, 70% dos pacientes que dão entrada são vítimas de acidentes com motocicletas.

“O anteparo do motociclista é o próprio corpo, as vítimas são geralmente politraumatizados e requerem atenção de multiprofissionais, de várias especialidades. Temos recebido nos hospitais de traumas fraturas cada vez mais complexas, gastando com próteses cada vez mais caras e pacientes com longo tempo de internação”, detalhou o secretário de saúde, que foi diretor do Hospital de Trauma de Campina Grande por oito anos.

Ainda de acordo com Geraldo Medeiros, a média de gasto público de uma vítima de acidente de moto politraumatizada grave é de R$ 300 mil por paciente.

Por mês, o Hospital de Trauma de Campina Grande realiza média 850 atendimentos de vítimas de acidentes com motos, enquanto o Hospital de Trauma de João Pessoa atende 750 vítimas acidentes com motocicletas mensalmente. O número inferior no hospital de João Pessoa em relação ao de Campina Grande, apesar da capital ter quase o dobro da população, se dá pela divisão dos atendimentos com o Hospital de Ortotrauma de Mangabeira.

“O Hospital de Trauma de Campina Grande atendeu vítimas de acidente de moto de 331 municípios do Brasil, neste caso, de cidades de estados vizinhos. Atualmente o Trauma de Campina representa o maior movimento de trauma do estado”, completou Medeiros.

Saída pela conscientização

O aumento gradativo do número de veículos e da população paraibana deve agravar ainda mais o número de pessoas vítimas de acidente. Uma projeção feita pelo G1 indica que, a depender da média de crescimento do número de veículos no estado nos últimos oito anos e das estimativas populacionais feitas pelo IBGE, o número de veículos pode superar o de habitantes na Paraíba no ano de 2060.

As facilidades de financiamento e o baixo custo de aquisição e manutenção fazem das motocicletas as maiores responsáveis pelo crescimento vertiginoso da frota de veículos na Paraíba e no Brasil.

“Em 2000 tínhamos 50 mil motos, atualmente temos algo em torno de 530 mil motos no estado. Mesmo que a gente consiga diminuir 10% dos acidentes, em números absolutos, esses eventos devem continuar crescendo vertiginosamente por conta do aumento desse tipo de veículo. Cerca 65% das cidades do Brasil já tem mais motos que carros”, comentou Geraldo Medeiros.

Segundo dados do Detran-PB, entre 2011 até março de 2019, dado mais recente disponibilizado, a frota total de veículos, incluindo motos, cresceu aproximadamente 72%, passando de 763.618 veículos para 1.316.793 veículos.

A Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de João Pessoa (Semob), cidade paraibana que tem maior população e, naturalmente, maior frota de veículos, investiu, somente em 2018 cerca de R$ 490 mil em campanhas educativas pela paz no trânsito. O superintendente adjunto da Semob, Wallace Massini, em entrevista ao G1, explicou que a Prefeitura de João Pessoa deve iniciar neste ano as obras da Escola Municipal de Trânsito, que terá um papel essencial no trabalho de educação.

Confira entrevista com Wallace Massini

G1 - Quais são os investimentos feitos pela Semob em campanhas de conscientização em 2018?

Wallace Massini - Só no ano de 2018 a Semob-JP, por meio de sua Divisão de Educação para o Trânsito, realizou um total de 267 ações educativas, envolvendo atividades em escolas, empresas, hospitais e, principalmente, nas ruas, além de campanhas fixas como Paz no Trânsito, o Maio Amarelo e Amando o Próximo no Trânsito, voltada para as igrejas. As campanhas envolvem orientação, demonstrações e distribuição de material educativo, tendo como principal objetivo o alerta aos condutores e pedestres sobre a importância do respeito às leis de trânsito para a garantia da segurança viária. Entre os principais temas estão o compartilhamento de espaços, excesso de velocidade, uso do celular ao volante, bebida e direção e o uso da faixa de pedestre. Só em 2018 foram investidos R$ 490 mil em campanhas. Além disso, devem ser iniciada em 2019 as obras da Escola Municipal de Trânsito, que terá um papel essencial no trabalho de educação.

G1 - Quais são os mecanismos que a Semob tem implementado com objetivo de reduzir o número de acidentes de trânsito e consequentemente o número de mortes?

WM - A Semob-JP trabalha com foco na Educação para o Trânsito, mas também cumpre seu dever no que se refere à fiscalização, por meio de seus agentes de mobilidade urbana e das câmeras de monitoramento, e punição, dentro das infrações previstas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). O controle de velocidade das vias é um dos principais instrumentos para a redução do número de acidentes, o que é buscado por meio da instalação de lombadas eletrônicas e radares. É o caso da Orla da Capital, onde não foi registrado qualquer caso de morte desde que passou a ter limite de velocidade controlado por radares.

G1 - O aumento da frota é uma das causas pra o grande aumento de mortes e acidentes. A Semob entende que reduzir a frota oferecendo mais alternativas de transporte público ou que oferecem menos riscos é uma das formas de reduzir o alto número de mortes no trânsito? Quais investimentos e planejamentos voltados pra o transporte público?

WM - Toda a política pública elaborada pela Semob-JP tem como foco principal o transporte coletivo urbano e os meios de deslocamento sustentáveis, como a bicicleta. Uma das ações que visam estimular o uso dos ônibus urbanos foi a implantação das faixas exclusivas nos principais corredores da Capital, que reduzem em cerca de 15 minutos o tempo de deslocamento, a depender do trajeto. Além disso, a Semob atua na fiscalização do serviço de transporte, verificando a qualidade dos veículos e a prestação adequada do serviço, incluindo o cumprimento dos horários e itinerários. No que se refere ao planejamento, há uma série de ações em desenvolvimento que devem facilitar a vida de quem anda de ônibus, como o corredor troncal da Av. Pedro II e o Terminal de Integração do Valentina, que vão tornar mais rápido o deslocamento da Zona Sul, área mais populosa da Capital, ao Centro. Essas obras também vão possibilitar o aumento do número de viagens das linhas de bairro, o que vai reduzir tempo de espera.

G1 - Há algum diálogo com outras instâncias do poder público para ser firmado um trabalho cooperativo para desenvolver soluções para combater a escalada das mortes no trânsito?

WM - A Semob-JP atua periodicamente em Blitz de fiscalização ao lado de órgãos como o Ministério Público, BPTran e Detran.